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16 de Julho de 2018
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    Jornalista expõe o papel da imprensa na segurança pública

    Defensoria Pública do Rio de Janeiro
    há 11 meses

    Em aula aberta na Defensoria, criadora do aplicativo Fogo Cruzado defende mudança no tratamento de notícias sobre a violência

    Há pouco mais de um ano, a jornalista Cecilia Olliveira administra o site e o aplicativo Fogo Cruzado, reunindo e analisando informações sobre tiroteios e disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio. Essa experiência e o conhecimento acumulado na chamada mídia alternativa e em organizações não governamentais pautaram a participação da hoje editora da publicação online The Intercept no curso de Sistema de Justiça Criminal em Perspectiva, com a palestra Responsabilidade da imprensa na construção da culpa e a sensação de insegurança, nesta sexta-feira (11).

    A dificuldade em obter dados específicos sobre uso de armas de fogo levou à ideia das plataformas digitais, abertas a notificações de toda e qualquer pessoa que presencie ou tenha notícias de tiros, em confrontos ou não. Outras fontes são o material produzido pela imprensa e os relatórios das autoridades de segurança. Site e aplicativo recebem, em média, 15 informes diários de ocorrência, o que Cecilia considera estar muito aquém da realidade.

    – A subnotificação é enorme, sem dúvida. Dá para concluir também que, pela quantidade de disparos todos os dias, o número de vítimas não é tão grande.

    Gratuito, o aplicativo Fogo Cruzado está disponível em versão IOS e Android. A consulta é aberta e as notificações inteiramente anônimas. Posto no ar a um mês da abertura dos Jogos Olímpicos, Fogo Cruzado já foi baixado 100 mil vezes. O site fogocruzado.org.br é outra opção para os interessados. Em ambos é possível acompanhar o cruzamento de dados, inclusive por meio de gráficos e com recortes por bairro, data ou registro de vítimas.

    – Nesse primeiro ano de trabalho, um dos principais diagnósticos é de que, na capital, dentre os dez locais com maior incidência de troca de tiros ou disparos de arma de fogo, oito têm Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Isso mostra o quanto é urgente a revisão da estratégia de segurança pública no Rio – explica Cecília.

    A jornalista também faz críticas à imprensa, aqui compreendidos as grandes empresas e os colegas de profissão.

    – De certa forma, a imprensa também é parte do sistema de justiça, e comete equívocos bárbaros – diz ela, referindo-se ao caso da Escola Base, em São Paulo. Em 1994, notícias totalmente infundadas de pedofilia levaram à falência do estabelecimento e desaguaram num longo processo judicial e na condenação da Rede Globo ao pagamento de R$ 1,35 milhão por danos morais, entre outras sanções pecuniárias.

    Cecília ressalta que as corporações de mídia têm grande influência na grade dos cursos de jornalismo, e que esses deveriam ser multidisciplinares. Aliado a isso – continua –, é necessário acabar definitivamente com a exigência de diploma para o exercício da profissão. Ela, que já trabalhou no Observatório das Favelas e foi editora do Maré Notícias, se espanta em constatar que há repórteres que sequer conhecem a geografia da cidade e “nem sabem onde fica a Linha Vermelha”.

    A falta de vivência e o alheamento também acabam por influenciar o tratamento dado às notícias sobre tiros.

    – Quase tudo é tratado como tiroteio, como troca de tiros; e muitas vezes é unilateral, um assalto, por exemplo. É por isso que uso as expressões tiroteios ou disparo de arma de fogo, na tentativa de ressaltar a diferença entre as duas situações –, completa.

    A palestra da jornalista foi a última do ciclo promovido pela subcoordenadoria de Defesa Criminal em parceria com a Fundação Escola Superior da Defensoria (Fesudeperj). Na próxima sexta-feira, 18, os participantes da iniciativa formam uma roda de conversa com o objetivo de avaliar o ciclo e elaborar propostas que colaborem para o aperfeiçoamento do sistema de justiça criminal.

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